quarta-feira, 13 de março de 2013

As chuvas definem a rota. O passo do barco define o tempo


Venturas e desventuras do teatro na floresta, no seringal, na aldeia, na beira do rio...  

GISELLE LUCENA


Foram 15 dias de viagem, carregando a sede por novos encontros, descobertas e vivências culturais que logo vão se revelar no palco. O Grupo de teatro Vivarte acaba de realizar a turnê “Encantoria no interior”, financiada pelo Fundo Estadual de Cultura, levando ainda artistas de outros países que vieram visitar o Casa de Cultura Vivarte, bem como parceiros indígenas interessados no intercâmbio cultural. “Com a presença de vários convidados, a produção da turnê foi um pouco mais difícil, mas a troca de experiências foi muito gratificante”, conta Maria Rita, uma das coordenadores do grupo. Tarauacá, Rodrigues Alves, Porto Valter, Marechal Thaumaturgo, chegando até a Aldeia Ashaninka, no Rio Amônia, foram alguns dos lugares pelos quais o grupo passou. “Imagine você chegar num lugar, começar a tocar tambores, anunciando que o espetáculo vai começar, e, aos poucos, as pessoas irem se reunindo para ver o espetáculo”, descreve Juliano Espinhos, um dos integrantes. “Na aldeia Ashaninka, eles se arrumaram, com suas pinturas e colares, para nos assistir”, completa Rita.



Uma parte da viagem foi feita com o ônibus que o próprio grupo conseguiu adquirir com os cachês de apresentações. Outra parte da viagem foi de barco e, assim, as rotas e os horários de chegadas e partidas eram sempre incertos, mas a persistência para enfrentar os imprevistos e continuar subindo o rio trouxe boas recompensas. “Vivemos uma das melhores apresentações que já realizamos, pela receptividade e atenção que recebemos das cidades. Além disso, a turnê nos possibilitou ampliar o projeto, conhecer melhor comunidades do interior do Acre e suas questões ambientais, o que nos oferece uma visão sobre a realidade do Acre que pode compor nossos espetáculos”, explica Juliano.



Teatro e tradição: Com este trabalho, o Grupo Vivarte leva o teatro para lugares onde outros grupos nunca estiveram. Dessa vez, três indígenas da tribo Huni Kui, da região do Envira, também participaram da turnê: Baianawá Inu Bake Hunikuê; Keã Inu Bake Hunikuê; Yube Inu Bake Hunikuê. A parceria é fruto de confiança conquistada com muitos anos de trabalho. “Eles fazem teatro há muito tempo, mas por uma tradição ritualística. E agora, buscam uma nova forma para trabalhar suas histórias, pois também acham legal essa possibilidade de fazer teatro e levar para outra aldeia, circular, integrar”, conta Dani Mirini, diretora do Vivarte. Os artistas também gostam de lembrar que, durante a apresentação na Aldeia Ashaninka, os indígenas também participam. “Eles abriram o espetáculo, e, em determinado momento, o nosso espetáculo e o deles viram um só. A maneira com que eles nos tratam e recebem o nosso teatro é muito diferente, interessante e bonita. Nunca tinha ido nenhum grupo de teatro lá”, diz Juliano.


Crescer é conhecer e permanecer

            Uma das principais características do Grupo Vivarte é a sua proposta de vivenciar uma contínua descoberta e redescoberta do Acre, suas histórias, lendas, costumes e valores. Indo numa direção contrária a que é comum, aquela poderia leva-los a focar nos grandes centros do país, eles preferem ir cada vez mais longe, crescer e fortalecer suas raízes nos seus próprios territórios. E, com essa proposta, atraem a atenção de diversos grupos por aí afora, como o Grupo Pachorra, de Florianópolis, que está pela primeira vez no Acre se dedicando a experiência artística de grupo. “Conhecemos o grupo Vivarte em São Paulo, e eles foram muito aberto para a nossa proposta e para nos receber aqui”, conta Tainá Orsi. “Também trabalhamos com pesquisa ligada à cultura indígena, e ver o espetáculo do Vivarte nos trouxe uma inspiração para trabalhar o teatro de rua”, revela Rafaela Herran. Já para Guilherme Freitas, o grande atrativo foi a possibilidade de vivenciar algo diferente do que é ensinado nos cursos de artes cênicas. “No ambiente acadêmico, somos obrigados a trabalhar dentro de propostas já bem moldadas. Com o Vivarte,  encontramos uma maneira mais interessante de mostrar e dizer o que queremos”, explica. “O Vivarte tem nos ensinado a buscar o nosso próprio público, a explorar o olhar para o nosso próprio território, de onde viemos e, portanto, o que somos. Quando voltarmos, também iremos em busca do nosso público em Florianópolis”, conta Tainá.  



A vida é toda palco: Outra turnê que o grupo acaba de realizar no início deste ano, foi a que levou seu espetáculo para seis apresentações em comunidades ribeirinhas, pelo projeto “Encantoria no Seringal: Teatro no riozinho do Rola”, financiado  pela Lei Municipal de Incentivo à Cultura e patrocínio do Banco do Brasil. “A volta sempre depende do nível do rio e do passo do barco”, lembra Rita. E assim, o Grupo Vivarte vai promovendo e colecionando encontros, histórias e informações que criam outros espetáculos, bem como outras iniciativas, como o início de um mapeamento e diagnóstico dos corredores ambientais e reservas extrativistas do Riozinho do Rola. “Fazemos um trabalho artístico, cultural, político, social e ambiental”, explica Juliano, na tentativa de dar nome à grandeza desse trabalho. O Vivarte está com a agenda fechada até agosto: entre as novas produções teatrais, as atividades do Casa Vivarte, que é um Ponto de Cultura, há também o Encontro da Rede Brasileira de Teatro de Rua, que acontecerá em Rio Branco, no segundo semestre deste ano. Para conferir o diário de bordo e outras novidades do Vivarte, acesse: http://blogdovivarte.blogspot.com.br/.


segunda-feira, 18 de fevereiro de 2013

Diário de Bordo da Turnê Encantoria no Rio Acre - #8

Colônia Primavera - Rio Branco/Acre
16/02/2013
Texto e fotos por Talita Oliveira

Depois de uma boa noite de sono, graças a gentileza de seu Raimundo, tomamos um bom café da manhã com tapiocas feitas por Rita, Dani e Regiane. Logo depois do café, o pessoal foi arrumando o cenário do espetáculo, que foi feito dentro da casa do seu Raimundo. Tudo prontinho, aguardando a chegada do nosso público...

Tapioca quentinha...
A apresentação começou por volta das 11h. Lua estava com febre, devido a catapora, e por isso não poderia participar da apresentação. O grupo Vivarte se reuniu, conversou e acabou decidindo substituir a apresentação do Encantoria por contação de histórias. Primeiro o grupo Pachorra, de Florianópolis, apresentou o seu espetáculo A origem das estrelas ou a revolta da Pamonha. Depois Dani contou A história do Zé Gogó, de Chico Pedrosa. Fico encantada em como a Dani consegue prender a atenção das pessoas. Ela tem uma interpretação enérgica e cativante. Todos deram muitas risadas com a história contada por ela. Depois o Rodolfo contou uma história cantada, A Festa dos Bichos. Rodolfo é um passarinho mesmo, como dizem o pessoal do Vivarte, além de compor músicas lindas. Depois o Juliano cantou Curió, uma linda canção que fala sobre o sofrimento de um passarinho dentro de uma gaiola. Quando ele terminou, um senhor que assistiu disse que ele nem precisava ouvir o que ele estava cantando, era só olhar para como os dedos dedilhavam o violão. A partir disso, rolou uma boa prosa entre os dois. Por fim, Dani contou mais uma história, dessa vez a do Mapinguari, do Hélio Melo. Com essa história fomos nos despedindo...

Apresentação do Pachorra
Dani e a A história do Zé Gogó
Rodolfo e a A Festa dos Bichos
Juliano e o Curió

Dani e o Mapinguari

Enquanto o pessoal dos grupos levavam as coisas de volta ao barco, aproveitei para acompanhar o seu Raimundo na colheita de alguns cachos de Pupunha. Presente dele pra gente. A pupunha estava mesmo uma delícia. Tinha da amarelinha e da vermelha...

Seu Raimundo e seu Serafim
Quando estávamos quase de partida, todos no barco, Juliano sugeriu que fosse feita uma limpeza do barranco. Realmente estava precisando... Quando cheguei, perguntei a Regiane o que eles faziam com o lixo e ela me respondeu, meio envergonhada, que jogavam no barranco. É um tristeza ver tanto lixo perto de tanta vida... Fonte de água pra beber, pra tomar banho, fazer comida, navegar e pescar... É urgente a necessidade de uma educação ambiental para os ribeirinhos e apresentação de alternativas para o destino do lixo.

Limpeza do barranco
Feita a limpeza, seguimos viagem rumo a Rio Branco. A viagem foi maravilhosa durante todos esses dias. Fomos bem recebidos em absolutamente todas as casas que aportamos. É encantador uma pessoa que você nunca viu na vida, te receber com gentileza, abrindo as portas de sua casa sem medo... Quanto diferença para os costumes da cidade! Mas confesso que apesar de linda, a semana foi bem cansativa... A começar por conviver com mais 13 pessoas, cada qual do seu jeito e com seus sons, humores. E todo dia aquele sobe e desce de barranco. Sobe e desce as coisas... Atar e desatar das redes. Dessa vez eu aprendi a dar nó em corda de rede, coisa que das outras viagens de barco que fiz, nunca tinha aprendido... Também nunca tinha viajado com artistas assim, em turnê... Foi uma rica experiência. Como sempre, nessas viagens em que o tempo parece mais lento, eu me pego pensando em coisas que são infinitas. Me conecto com a natureza, os sentidos ficam mais atentos e os sonhos embalados pela rede parecem mais reais e reveladores...

Agradeço ao convite do Grupo Vivarte, a convivência e paciência com e de todos. Parabéns pela iniciativa. Foi de arrepiar ver pessoas assistindo teatro pela primeira vez. Pessoas que não sabiam o que significava a palavra "teatro". Pessoas com os olhos e sorrisos brilhando, encantadas. A iniciativa, ao meu ver, é revolucionária. A arte transforma e abre portas....

Vida longa, Vivarte, Pachorra, Arte e Floresta !

Diário de Bordo da Turnê Encantoria no Rio Acre - #7

Colônia Primavera - Rio Branco/Acre
15/02/2013
Escrito por Rodolfo Minari
Fotos por Talita Oliveira



Acordamos, descemos muito devagar o mais alto barranco que encontramos na viagem. Seguimos descendo. Paramos na casa de Seu Manuel, para vê-lo e devolver sua faca, a com que Rafa quase decepou o próprio dedo, tirando castanha da casca. Mas ninguém estava lá – só uma pessoa cuidando da casa. Na Novinha, a mesma coisa. Tínhamos agendado a apresentação, mas para o dia anterior, e não conseguimos ligar avisando. Lá só estava um senhor que conhecemos na ida, e que não enxerga quase nada...

O maior de todos os barrancos...

Constatou-se, ainda que Lua estava com catapora, e, somando-se as coisas, cogitamos seguir até Rio Branco e substituir a apresentação por uma na Transacreana, ou no Ceasa.

Lídia e Lua.

Mas Seu Serafim se deu conta de que já eram 16h e só seria possível chegar a Rio Branco à noite, o que não queríamos. Ele informou então de outro lugar onde morava uma família amiga, chefiada por um velho de quem gostava muito.

Aportamos nesse local. Mercearia Primavera, li. Subimos o barranco, bastante liso e muito cheio de lixo e fomos recebidos por uma menina de 11 anos, chamada Regiane, com uma garrafa de café. Nos acolheu, situou e conversou ativamente conosco, uma excelente anfitriã com um sorriso lindo que a Talita fotografou várias vezes. Seu irmão mais velho também estava em casa, porém, mais introvertido que a irmã, preferia esperar lá dentro quieto, até o pai voltar. Este estava trabalhando, ali perto. E o velho tinha ido à cidade, abastecer a venda, que na ocasião não tinha nada pra vender.


Chegando na colônia Primavera.
Regiane

Com a chegada do pai, conhecemos o irmão. Ele já repetiu uma série. A menina não. “Mas o vô gosta desse menino, ó”, dizia Regiane, e nos aprontou uns bodós, de sal, salpicados de açúcar.

Pra dormir o barracão da sinuca, para armar barraca e rede, e colchões, camas, dentro da casa, “hotel cinco estrelas”, dizíamos, onde viviam, aqui e ali, três jabutis.