Venturas e
desventuras do teatro na floresta, no seringal, na aldeia, na beira do
rio...
GISELLE LUCENA

Foram 15 dias de
viagem, carregando a sede por novos encontros, descobertas e vivências
culturais que logo vão se revelar no palco. O Grupo de teatro Vivarte acaba de
realizar a turnê “Encantoria no interior”, financiada pelo Fundo Estadual de
Cultura, levando ainda artistas de outros países que vieram visitar o Casa de
Cultura Vivarte, bem como parceiros indígenas interessados no intercâmbio
cultural. “Com a presença de vários convidados, a produção da turnê foi um
pouco mais difícil, mas a troca de experiências foi muito gratificante”, conta
Maria Rita, uma das coordenadores do grupo. Tarauacá, Rodrigues Alves, Porto
Valter, Marechal Thaumaturgo, chegando até a Aldeia Ashaninka, no Rio Amônia,
foram alguns dos lugares pelos quais o grupo passou. “Imagine você chegar num
lugar, começar a tocar tambores, anunciando que o espetáculo vai começar, e,
aos poucos, as pessoas irem se reunindo para ver o espetáculo”, descreve
Juliano Espinhos, um dos integrantes. “Na aldeia Ashaninka, eles se arrumaram,
com suas pinturas e colares, para nos assistir”, completa Rita.
Uma parte da viagem foi feita com o ônibus que o
próprio grupo conseguiu adquirir com os cachês de apresentações. Outra parte da
viagem foi de barco e, assim, as rotas e os horários de chegadas e partidas
eram sempre incertos, mas a persistência para enfrentar os imprevistos e
continuar subindo o rio trouxe boas recompensas. “Vivemos uma das melhores
apresentações que já realizamos, pela receptividade e atenção que recebemos das
cidades. Além disso, a turnê nos possibilitou ampliar o projeto, conhecer
melhor comunidades do interior do Acre e suas questões ambientais, o que nos
oferece uma visão sobre a realidade do Acre que pode compor nossos
espetáculos”, explica Juliano.
Teatro e tradição: Com este trabalho, o Grupo
Vivarte leva o teatro para lugares onde outros grupos nunca estiveram. Dessa
vez, três indígenas da tribo Huni Kui, da região do Envira, também participaram
da turnê: Baianawá Inu Bake Hunikuê; Keã Inu Bake Hunikuê; Yube Inu Bake
Hunikuê. A parceria é fruto de confiança conquistada com muitos anos de
trabalho. “Eles fazem teatro há muito tempo, mas por uma tradição ritualística.
E agora, buscam uma nova forma para trabalhar suas histórias, pois também acham
legal essa possibilidade de fazer teatro e levar para outra aldeia, circular, integrar”, conta Dani Mirini, diretora do Vivarte. Os artistas também gostam de lembrar que, durante a apresentação
na Aldeia Ashaninka, os indígenas também participam. “Eles abriram o
espetáculo, e, em determinado momento, o nosso espetáculo e o deles viram um
só. A maneira com que eles nos tratam e recebem o nosso teatro é muito
diferente, interessante e bonita. Nunca tinha ido nenhum grupo de teatro lá”,
diz Juliano.
Crescer é conhecer e permanecer
Uma das principais características do
Grupo Vivarte é a sua proposta de vivenciar uma contínua descoberta e
redescoberta do Acre, suas histórias, lendas, costumes e valores. Indo numa
direção contrária a que é comum, aquela poderia leva-los a focar nos grandes
centros do país, eles preferem ir cada vez mais longe, crescer e fortalecer
suas raízes nos seus próprios territórios. E, com essa proposta, atraem a
atenção de diversos grupos por aí afora, como o Grupo Pachorra, de
Florianópolis, que está pela primeira vez no Acre se dedicando a experiência
artística de grupo. “Conhecemos o grupo Vivarte em São Paulo, e eles foram
muito aberto para a nossa proposta e para nos receber aqui”, conta Tainá Orsi.
“Também trabalhamos com pesquisa ligada à cultura indígena, e ver o espetáculo
do Vivarte nos trouxe uma inspiração para trabalhar o teatro de rua”, revela
Rafaela Herran. Já para Guilherme Freitas, o grande atrativo foi a
possibilidade de vivenciar algo diferente do que é ensinado nos cursos de artes
cênicas. “No ambiente acadêmico, somos obrigados a trabalhar dentro de propostas
já bem moldadas. Com o Vivarte, encontramos
uma maneira mais interessante de mostrar e dizer o que queremos”, explica. “O
Vivarte tem nos ensinado a buscar o nosso próprio público, a explorar o olhar
para o nosso próprio território, de onde viemos e, portanto, o que somos.
Quando voltarmos, também iremos em busca do nosso público em Florianópolis”,
conta Tainá.
A vida é toda palco: Outra turnê que o grupo acaba de realizar
no início deste ano, foi a que levou seu espetáculo para seis apresentações em
comunidades ribeirinhas, pelo projeto “Encantoria no Seringal: Teatro no
riozinho do Rola”, financiado pela Lei
Municipal de Incentivo à Cultura e patrocínio do Banco do Brasil. “A volta
sempre depende do nível do rio e do passo do barco”, lembra Rita. E assim, o
Grupo Vivarte vai promovendo e colecionando encontros, histórias e informações
que criam outros espetáculos, bem como outras iniciativas, como o início de um
mapeamento e diagnóstico dos corredores ambientais e reservas extrativistas do
Riozinho do Rola. “Fazemos um trabalho artístico, cultural, político, social e
ambiental”, explica Juliano, na tentativa de dar nome à grandeza desse
trabalho. O Vivarte está com a agenda fechada até agosto: entre as novas
produções teatrais, as atividades do Casa Vivarte, que é um Ponto de Cultura, há
também o Encontro da Rede Brasileira de Teatro de Rua, que acontecerá em Rio
Branco, no segundo semestre deste ano. Para conferir o diário de bordo e outras
novidades do Vivarte, acesse: http://blogdovivarte.blogspot.com.br/.


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