segunda-feira, 18 de fevereiro de 2013

Diário de Bordo da Turnê Encantoria no Rio Acre - #3


Seringal Kapatará - Rio Branco/Acre
11/02/2013
Escrito por Maria Rita
Fotos por Talita Oliveira



Acordei com o cantar do galo e seu Manuel já estava de pé. Eram 3 horas da manhã. Continuei na rede, ouvindo o movimento da casa e fui lembrando do pouco que sei sobre a história do Acre, contadas nos livros. E aí comecei a ligar a história de seu Manuel... Ele acorda as tres da manhã, exatamente o horário em que os seringeuriros acordavam. Preparava seu café, pegava sua poronga e colocava na cabeça, colocava sua espingarda nas costas, preparava algum alimento e saía pra cortar seringa nas estradas. Ficavam o dia todo fazendo o corte da seringa, voltavam já a tardinha e ainda tinha que preparar lá no tapiri o cernambil. .Essa história relatada por um ex-seringueiro,  memória viva da história do Acre, é uma das experiências mais gratificante que já presenciei.

Preparando o café da manhã
Mais ensaio...
Apresentação do espetáculo "A origem das estrelas ou a revolta da Pamonha", do Grupo Pachorra (SC)
Apresentação do nosso espetáculo Encantoria.
Vivarte, Pachorra e o público da nossa primeira apresentação.

 

Diário de Bordo da Turnê Encantoria no Rio Acre - #2

Seringal Kapatará - Rio Branco/Acre
10/02/2013
Escrito por Maria Rita
Fotos por Talita Oliveira



Seu Serafim ancorou o barco que nos condunziu a primeira parada para a nossa primeira apresentação. Estavamos no barco passando o ensaio do Encatoria, quando chegamos no Barracão de seu Manuel.

Ensaiando no barco.
No caminho, um banho de igarapé para refrescar...
 Fiquei logo encantada com os pés de bambuzal na ribanceira onde paramos. Quando fui descer para ter o primeiro contato com o morador, aoo pisar no degrau que seu Serafim fez para todos descerem, o degrau desabou e o barco se afastou... e eu cai ribanceira a baixo. Pensei que tinha quebrado o meu braço direito! Com muita dor, mas suportável, com ajuda consegui sair de dentro d’água e conheci seu Manuel Ferreira, um filho de um paranaense que veio na mesma leva de nordestinos que veio  ao Acre com um único objetivo: cortar seringa.

Dona Dalva e seu Manuel
Segundo Seu Manuel, ele nasceu aqui no Acre e seu pai  deixou sua familia em sua Cidade Natal, mas foi ficando por aqui e construiu outra familia da qual ele nasceu. E, conforme seu relato, seu pai foi um dos seringueiros que começou a burlar o sistema de aviamento e começou a fazer seu roçadinho, pois tudo que consumiam era fornecido pelo seringalista num preço exorbitante que os seringueiros, e seu pai não tinha condições de saldar suas dividas junto ao barração. Por isso  ele tomou essa iniciativa de começar sua agricultura de subsistência. Tanto foi que quando veio a Crise do Ciclo da borracha, o próprio Seringalista autorizou que todos os seringueiros fizessem seus roçados.

Ensaiando na varanda do seu Manuel
Nosso barco.
 

Diário de Bordo da Turnê Encantoria no Rio Acre - #1

Rio Branco - Acre
09/02/2013
Escrito por Paulo Jordão
Fotos por Talita Oliveira



Fui acordado as 8h com o som da movimentação na casa Vivarte. Uma energia positiva que envolvia todos com a viagem para subir o rio Acre. Quando percebi, em um pulo estava de pé, com tudo necessário para a partida em mãos. Logo o caminhão chegou e todos carregavam o material do espetáculo, malas e suprimentos necessários para nos alimentar nos longos dias de viagem. 

Fomos na carroceria do caminhão ate o porto, descarregamos e organizamos a bagagem no barco. A Rafa e eu compramos as bombonas de água próximo ao porto. Enquanto organizavamos o barco, uma equipe de reportagem da emissora Amazon SAT estava próxima, gravando uma matéria, e eles se aproximaram do barco quando viram a movimentação. Gravaram uma matéria com os grupos Pachorra e Vivarte. Foi feita uma pequena demonstração do espetáculo Encantoria, do Grupo Vivarte, interpretado por uma das atrizes, Dani Mirini. 

Carregando o barco.

Maria Rita, do Vivarte, em entrevista a equipe da Amazon Sat.

Tainá Orsi, do Pachorra, em entrevista a equipe da Amazon Sat.
Dani Mirini, em performace para a equipe da Amazon Sat.
Partimos por volta das 12h e logo a capitania dos portos nos abordou e somente após toda averiguação da documentação do barco, fomos liberados para seguir a viagem. Rita foi logo até a cozinha do barco para preparar o almoço dos tripulantes... Todos estavam com muita fome, pois quando levantamos não tivemos tempo de preparar o café da manhã. Ligamos o gerador para funcionar o freezer. Diversos foram os assuntos, porém o Pachorra conversava com o Juliano sobre o trabalho de ayahuasca feito na casa do amigo Cláudio, no dia anterior. Depois disso, na cozinha, Tainá Orsi e eu ajudavam a descascar os legumes, preparando o almoço no barco e ouvindo as várias histórias contadas por Maria Rita, a produtora do grupo Vivarte. Ela contava sobre o surgimento do grupo, iniciado no colégio onde ela trabalhava como professora de história e, dessa maneira, começou a desenvolver junto com os alunos, onde o grupo desenvolveu como Augusto Boal o Teatro do Oprimido, levando o teatro até as margens. 

Navegando e conversando...
Enquanto aguardavámos o almoço, ficamos na proa do barco saudando as crianças das comunidades riberinhas que se encantavam com a nossa passagem, mandando calorosos “tchauzinhos”.

O nosso capitão, Seu Serafim, resolveu parar para tirar os galhos do motor e reabastecer, enquanto isso a Rita anunciou que o almoço estava pronto. Que almoço delicioso! Foi servido sopa de legumes, arroz branco, feijão bem temperadinho e refrigerante para refrescar. Cada um terminou a refeição e lavou seu prato no rio. Terminada a refeição, cada um tomou logo seu espaço no barco. Uns cochilaram, e outros que, como eu, não conseguia tirar os olhos de tanta beleza, sentei na varanda do barco e fiquei admirando as águas com cor de bronze do Rio Acre. 

Navegando e contemplando...
Paramos em uma altura do rio, pois precisavamos organizar as redes e barracas antes do anoitecer. Para no Remansinho, onde fomos recebidos por Mário Jorge e sua família. A casa estava fechada a algum tempo, pertencia a mãe de Jorge e ele e sua família haviam chegado a pouco tempo.

Avistando nossa primeira parada...
Nosso acampamento.
Eu, Guilherme Freitas e Tainá arrumamos nossa barraca e fomos fazer um fogo que sem alcool ou oléo e com apenas madeira molhada, demorou um longo tempo para acender, porém nos três sentiamos a necessidade da chama sagrada desse fogo.

quarta-feira, 9 de janeiro de 2013

Quando o ir-e-vir mantém o que é fixo

Grupo de teatro, artistas de rua, viajantes e moradores do bairro. Todos se encontram no espaço da cultura


GISELLE LUCENA

Alejandro está prestes a ir para a Venezuela. Dani o chama para um conversa junto com mais alguns outros também. Ela senta no chão da cozinha e anuncia os afazeres da casa: pintar as paredes de uma sala, ajustar as janelas de outra... Quem sabe, dessa vez, pode até rolar um pagamento. Alejandro não sabe exatamente como é, mas se propõe a aprender e terminar o trabalho junto com Alex. Dani orienta as cores: lilás nessa, azul naquela. Mas é Gabi quem vai dar a decisão final. Alex sugere listar todas as tarefas e materiais. Dani reforça o pedido para que eles assumam a responsabilidade pela casa, afinal, ela também está arrumando as malas para partir, mas para o interior do Acre com o Vivarte, grupo de teatro de rua e da floresta. 

Casa é espaço permanente para vivência e intercâmbio de artistas de diferentes lugares

Eles são artistas viajantes. Alguns mais viajantes; outros mais artistas. E é na coletividade que a Casa de Cultura Vivarte vai aprumando seu lugar, fixo e bem consolidado, para tanto ir e vir. “Nos comunicamos pelo Facebook”, é o acerto final. A negociata envolve os que vão e os que ficam. Hoje, a maioria deles é argentinos, também há um estadunidense e uns dois paulistas. Eles são estudantes, artistas plásticos, mímicos. Vêm, trazem um pouquinho do mundo, ajudam a incrementar os trabalhos e a casa do Vivarte e depois vão, carregando um pouquinho do Acre, deixando espaço para mais outros, intercambiando lugares e experiências. Também já passaram por lá chilenos, paraguaios e gente de vários cantos do Brasil. 

À frente, Maria Rita, uma das integrantes do Vivarte e coordenadoras da casa; ao fundo, o argentino Alejandro, um dos artistas viajantes que mora atualmente lá

Alejandro Agustin Lazzeri é argentino, artesão e artista de teatro. Há um mês foi recebido pela turma do Vivarte, visitou aldeia indígena, conheceu o chá da ayahuasca e ajudou na manutenção da casa. Do Brasil, só conheceu o Acre. Ainda nesse mês, depois dos últimos trabalhos que se comprometeu a fazer, ele deve partir para o país vizinho. “Dessa vivência, levarei muito aprendizado, seja da relação com os amigos, com a arte acreana, com a língua brasileira. Afinal, onde você for e conhecer diferentes pessoas, muita coisa nova você irá aprender”, diz. 

Saraus envolvem artistas que vêm de outras cidade e de outros países

Outro morador é Alex Alves, músico e artista do tipo que faz de tudo um pouco. Ele é integrante do Cicas, um Centro de Cultura Independente, localizado em São Paulo (SP). “Lá, também desenvolvemos projetos culturais junto à comunidade e movimentos independentes”, diz. Alves conheceu os integrantes do Vivarte lá mesmo, em São Paulo, e veio com o grupo para o Acre, onde já está há três meses. Além desse espaço, o grupo Vivarte mantém a “Área Verde”, localizada na Estrada Ac-90, Km 36 da Transacreana, também frequentado pelos artistas visitantes. Uma delas, a musicista Betina Fernandez, também da Argentina, comenta: “a floresta nos possibilita viver o tempo real”.

Ponto de Cultura do quê? 

Se configuram como pontos de cultura entidades que possuem trabalho consolidado e contínuo em determinada região, bairro ou comunidade. Com as portas sempre abertas, especialmente, para os moradores do bairros, que compõem o público fiel dos saraus, oficinas e outras atividades permanentes oferecidas pela casa, o Ponto de Cultura “Casa Vivarte Espaço de Arte e Cultura de Rio Branco” é financiado, desde o ano passado, por meio do Programa Nacional de Segurança Pública com Cidadania - Pronasci, do Ministério da Justiça. “Isso nos garante fortalecer ainda mais um trabalho que já fazíamos”, conta Maria Rita, integrante do grupo Vivarte e uma das coordenadoras da Casa. 

Atividades artísticas são regulares e abertas a toda comunidade

Com os recursos, eles garantem, além da realização de atividades regulares de formação, a aquisição de materiais como computadores, equipamentos de som, violões e tambores para oficinas de música, entre outros. “É preciso muito esforço e dedicação para manter isso tudo. O que me motiva, sempre, é que acredito no potencial que a arte tem de transformação. Na vivência, o treino é cotidiano, quando se aprende violão, só se aprende com muito esforço e paciência, mesmo que quebre uma corda, é preciso não desistir, até achar o ritmo”, diz Dani Mirini, também integrante do Grupo Vivarte e coordenadora da Casa. 

Financiamento ajuda na aquisição de equipamentos para as atividades

“Mas qualquer coisa que a gente faça e queira fazer bem feito, de verdade, enfrentaremos alguma dificuldade. Superar isso é o que faz valer a pena”, completa o visitante Alex. E, assim, a Casa Vivarte permanece num fluxo contínuo de chegadas e saídas; de vivências e aprendizados; de fazeres artísticos que se alimentam dos encontros entre que os vão e ficam. “O Vivarte nunca pára, construímos isso tudo juntos, de forma coletiva, por isso, estamos sempre com as portas abertas”, diz Dani. A casa está localizada na Rua Tapajós, 508, Bairro Vila Ivonete. 

Publicado originalmente no Jornal Página 20

quinta-feira, 6 de dezembro de 2012

E a Encantoria circula...

O grupo de brincantes saiu por cinco diferentes pontos de Rio Branco, convidando transeuntes a viajar no imaginário dos povos da Amazônia. De repente, um inesperado: eis que aparece “Loa”, um ser encantado das matas, trazendo consigo um universo mágico e místico, é que ela tem um livro de lendas e mistérios. Entra em cena o Boto, e depois o Uirapuru, e depois o Curupira, e junto, um misto de cânticos, danças e histórias, muitas histórias.


Este é o Encantoria, espetáculo que o grupo Vivarte levou para o Mercado do Bosque, para praça no bairro Calafate, Novo Mercado Velho, praça Povos da Floresta e Terminal Urbano, numa turnê patrocinada pelo Banco da Amazônia - BASA. Este espetáculo, assim como outros espetáculos já encenados pelo Grupo Vivarte, aborda a discussão sobre a preservação da Floresta Amazônica.


Logo na sequência, eles arrumaram as malas e levaram essas histórias e experiências para longe: o grupo foi até São Paulo, onde, em um intercâmbio cultural, participou da IV Mostra de Teatro de Rua da Zona Norte, promovido pelo Núcleo Pavanelli; do 7º Festival Nacional de Teatro de Campo Limpo (FESTCAL); e do Encontro da Rede de Teatro de Rua de São Paulo.

 Nossa estada em São Paulo fortaleceu nossos laços com os rueiros fazedores de teatro de lá. Visitamos grupos, conhecemos suas realidades, que não são muito diferentes das nossas lutas”, conta Maria Rita, presidente do grupo.

No final do mês passado, em Rio Branco, o grupo organizou os festivos da semana da consciência negra na Casa de Cultura Vivarte, com atividades diversas, como oficinas e apresentações artísticas.


Em janeiro do próximo ano, o grupo volta para a estrada, dessa vez no interior do Acre, por meio do Fundo Estadual de Cultura. Logo em fevereiro, eles tomam o barco e iniciam a circulação do Encantoria nos seringais, pela Lei Municipal de Incentivo à Cultura. E assim, o Vivarte caminha na sua missão de divulgar as histórias e lendas da Floresta Amazônica, valorizando as identidades culturais tradicionais da Amazônia e do Brasil.


*Todas as fotos são de Arison Jardim.